Despistagem de desinformação política nos grupos: 15 a 21 de setembro de 2019

O projeto Monitorização de propaganda e desinformação nas redes sociais, desenvolvido no MediaLab ISCTE IUL, está a efetuar semanalmente a caracterização dos posts com conteúdo político que, dentro do conjunto de grupos de Facebook analisado, obtiveram o maior número de interações. Seguem alguns exemplos deste processo, com o link de acesso, a respetiva caracterização (segundo a rotulagem do projeto) e categorização (segundo as categorias do First Draft News, de Claire Wardle), assim como a justificação para ambas as tipificações.

Da totalidade de posts analisados distinguem-se:

  • 5% de posts que apresentam teor político mas já não se encontram totalmente visíveis;
  • 15% de posts em que não existem conteúdos imprecisos ou incorretos, quer pela sua natureza, quer pelo rigor dos factos apresentados;
  • 40% de posts com conteúdo impreciso, que pode induzir o recetor em erro.
  • 40% de posts com conteúdo incorreto, desinformando o recetor

 

Pedofilia e ONU

Foi considerado como post político devido a vários comentários à publicação que faziam a ligação da notícia ao Engº António Guterres e ao Partido Socialista

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Caracterização

Reciclagem – no link
Título impreciso – no link

Categoria: Não aplicável

Justificação

Notícia da Pleno News é de 10 de julho de 2019, altura em que é conhecida a sentença de Peter Dalgish.

No título Peter Dalgish é identificado como ex-chefe da ONU, uma afirmação um pouco imprecisa, visto que o mesmo teve cargos relevantes, mas não de dirigente da Organização, como a frase pode induzir. Não obstante, foi considerado que a imprecisão não é suficientemente relevante para ser considerada.

 

Sexta às 9

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Caracterização

Spin de imagem – no meme
Acusações não fundamentadas – no meme

Categoria: Misleading content

Justificação

A inferência causal de que a proximidade de Maria Flor Pedroso ao centro de poder foi a causa para a interrupção do programa é uma acusação não fundamentada, assim como a interpretação da interrupção como uma censura e a ligação a entidades do Estado Novo. 

As restantes acusações têm algum fundamento. A primeira, é que o programa da RTP foi de alguma forma suspenso, não obstante o comunicado do OCS, e de que esta interrupção não cumpre os padrões da normalidade. A segunda de que Maria Flor Pedroso é próxima do centro de poder, nomeadamente de António Costa, confere. Ambos estes dados foram investigados pela Sábado.

 

Taxa audiovisual e a RTP

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Caracterização:

Factos incorretos à data atual – no post
Factos incorretos à data de publicação – no link
Factos incorretos – no link
Título incorreto – no link
Spin de imagem – no link
Uso descontextualizado de fontes fidedignas – no link

Categoria: Manipulated content; false connection

Justificação

O artigo no Semanário Extra foi publicado no dia 22 de janeiro de 2018 às 19H30. A data e hora deste link encontram-se no código fonte da página em questão, onde não se encontra visível nenhuma data de publicação. O artigo remete para uma foto de um título enganador de um artigo do mesmo dia do Correio da Manhã. O título “RTP faz subir a conta da luz em 6%” pode ser interpretado como um aumento da fatura da luz, quando o artigo é sobre o peso que a taxa de audiovisual tem na referida fatura. O texto do CM é bastante técnico, mas não refere um aumento da taxa, que se mantém no mesmo valor desde 2016: 2,85 euros mais IVA. 

O artigo do Semanário é uma adulteração dos factos do artigo do Correio da Manhã, com várias acusações não fundamentadas e interpretações imprecisas e incorretas, passando a ideia falaciosa de um aumento da eletricidade devido à taxa de audiovisual.  

A falta de contexto no timing desta notícia torna-a ainda mais desinformativa.

Acrescente-se que o título do artigo é também impreciso porque caracteriza os salários da RTP como milionários. 

Por fim o uso de uma imagem de Mário Centeno e António Costa, parcialmente fora de contexto, pode também ser considerada imprecisa e passível de induzir em erro.

 

Sexta às 9 II

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Caracterização: 

Acusações não fundamentadas – no texto do post
Acusações não fundamentadas – no link
Título impreciso – no link
Factos imprecisos – no link
Factos incorretos – no link

Categoria: False context; misleading content

Justificação

Texto igual ao usado pela Direita Política (post supra) também partilhando o mesmo link, igualmente da Direita Política

O post da Direita Política consta da avaliação efetuada no top das páginas desta mesma semana.

O comentário ao artigo é uma sugestão de interpretação que contém algumas acusações não fundamentadas: que o staff do Sexta às 9 não fala por medo de represálias e que se trata de censura. O artigo da Direita Política de Maria Vieira também contém algumas acusações não fundamentadas sobre a saída de Manuela Moura Guedes e José Eduardo Moniz. Mais grave, o artigo contém factos falsos, que embora estejam escritos como sugestões de interpretação, não correspondem à verdade: 

  • Portugal tem os salários mais baixos da UE – há vários países da União Europeia com salários mais baixos e menos poder de compra que Portugal.
  • Vai inevitavelmente conduzir-nos à bancarrota – inferência causal não fundamentada
  • Quarta bancarrota oferecida pelo PS – em 1983 tratava-se de um governo do Bloco Central, com PS e PSD.

É de referir no entanto que as restantes acusações surgem sustentadas por uma investigação da Sábado. A primeira de que não se trata de uma regular interrupção do programa como o canal alega, e a segunda de que Maria Flor Pedroso é familiar por afinidade de António Costa e que terá de facto uma relação próxima com o PM. A inferência causal de que a interrupção é uma consequência direta desta relação familiar é que surge como outra acusação não fundamentada.

 

Sexta às 9 III

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Caracterização

Acusações não fundamentadas – no meme

Categoria: Misleading content

Justificação

Ver justificação supra sobre Sexta às 9.

 

Sexta às 9 IV

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Caracterização

Acusações não fundamentadas – no texto do post
Acusações não fundamentadas – no link

Categoria: Misleading content

Justificação:

Acusações não fundamentadas, mais uma vez com a associação histórica ao Estado Novo, com o uso da expressão censura, inferindo que a interrupção do programa se deve a indicações do poder político. Os primeiros parágrafos são uma cópia do artigo d’A Televisão – fonte identificada no link da publicação.

O artigo d’A Televisão introduz ainda outra polémica envolvendo o Sexta às 9, sobre uma notícia envolvendo a Tap que terão sido impedidos de divulgar. Corretamente, identifica que a notícia é do Verão de 2019 antes de copiar novamente o texto do seu próprio site.

 

Pereira Coutinho

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Caracterização

Reciclagem – no post
Timing fora de contexto – no post
Factos imprecisos – no link
Título impreciso – no link
Acusações não fundamentadas – no link 

Categoria: Misleading content

Justificação

Existem várias outras notícias sobre o caso, designadamente mais recentes, sobre a OPA efetuada sobre a SAG e a sua posterior saída da bolsa. 

Os factos do artigo do Portugal Glorioso são do Correio da Manhã e pecam por imprecisos, por induzirem que o perdão da dívida tenha permitido a venda da empresa, em vez de enquadrar a própria venda dentro do acordo que foi efetuado com a banca. Paralelamente o título induz que o perdão foi a um empréstimo do milionário português, quando foi a uma empresa, na altura cotada em bolsa, do qual o mesmo detinha 80%, podendo os mesmos créditos não lhe ser imputados a título pessoal. Refira-se no entanto, que alguns destes créditos, pelo menos pelo BCP, já foram alvo de investigação por serem considerados imprudentes. 

O artigo inclui ainda a sugestão de interpretação de Joana Amaral Dias com algumas acusações não fundamentadas. Destaque-se o facto confuso de a data indicada no artigo do Portugal Glorioso, 28 de abril de 2019, ser anterior à data dos links colocados no artigo, o que sugere que o mesmo pode ter sido editado posteriormente à publicação inicial. Os links, da publicação de Joana Amaral Dias e do artigo do Correio da Manhã datam do dia 2 de Maio de 2019.

 

Protecção Civil

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Caracterização

Acusações não fundamentadas – no texto do post
Reciclagem – no post
Timing fora de contexto – no post
Dados incorretos à data atual – no post
Acusações não fundamentadas – no link

Categoria: False context

Justificação

Link da Direita Política é de 16 de setembro de 2017 e consta de um comentário ao Programa Sexta às 9 de 15 de Setembro de 2017 sobre ligações da Proteção Civil ao PS. O texto do link em si não contém dados apenas uma imagem do programa e uma série de acusações não fundamentadas. Tem alguns factos incorretos face à data atual visto que na sequência da investigação do programa houve uma série de alterações, nomeadamente a demissão de Rui Esteves, na altura Comandante Nacional da ANPC.

 

Barra da Costa

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Caracterização

Reciclagem – no post
Timing fora de contexto – no post
Texto do post induz a interpretação incorreta do link – no texto do post
Acusações não fundamentadas – no post

Categoria: False context

Justificação

Artigo do Portugal Glorioso de março de 2014, ainda durante o governo de Passos Coelho, em que surge um vídeo com declarações de Barra da Costa à TVI em março de 2012, em que o mesmo fala de José Sócrates e do caso dos submarinos, fazendo algumas acusações não fundamentadas. O artigo em si data corretamente as declarações de Barra da Costa e transcreve o texto das afirmações de Barra da Costa. 

Para além da questão das acusações não fundamentadas, a característica que torna este post desinformativo é a data, sendo que as acusações de Barra da Costa são relativas ao governo de Sócrates e aos envolvidos no caso dos submarinos, não à presente realidade. No entanto, a imagem com as declarações de Barra da Costa e o texto do post induzem em erro relativamente a quem eram direcionadas as acusações.

 

Teatro, nudez e crianças

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Caracterização: Não aplicável.

Categoria: Não aplicável. 

JustificaçãoNão obstante a imagem estar a ser utilizada por diversos artigos com conteúdo desinformativo, os dados referidos no link em questão verificam-se, como comprova o artigo do The Guardian e a própria página do espetáculo comprovam. 

 

Pan e os violadores

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Caracterização

Acusações não fundamentadas – no texto do post 
Factos incorretos à data de publicação – no post original
Factos incorretos à data atual – no post original
Factos imprecisos – no post original

Categoria: False context

Justificação

No programa inicial do PAN para as legislativas, houve um ponto que causou alguma polémica, o 1081 que previa “instituir a obrigatoriedade de reclusos condenados por crimes violentos contra outras pessoas fazerem uma sessão semanal de reconciliação com os familiares das vítimas, mediante aceitação destas, e, caso não se trate de homicídio, também com as próprias vítimas”.

No final do dia 10 de Setembro o PAN alterou a redação: “Permitir sessões semanais de reconciliação entre reclusos condenados por crimes violentos, com exceção dos crimes de violência doméstica ou violação, e familiares das vítimas ou com as próprias vítimas”.

O post original é de dia 11 de Setembro, 23H10, mais de 24 horas depois do PAN já ter alterado o polémico ponto do seu programa.

Relativamente à imprecisão na interpretação dos factos: O PAN não propôs no seu programa o “perdão” para violadores, o conceito da Justiça Restaurativa (ou regenerativa) propõe redução de penas quando existe consenso entre a vítima e o agressor, e apenas mediante aceitação destes (como explicava o ponto inicial do PAN). 

 

Medina

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Caracterização

Acusações não fundamentadas – no texto do post
Texto do post induz a interpretação incorreta do link
Reciclagem – no post
Timing fora de contexto-  no post
Factos incorretos à data atual – no post
Acusações não fundamentadas – no link

Categoria: False context

Justificação

Trata-se da reciclagem de um artigo da Direita Política de setembro de 2017. As notícias sobre a investigação visando atividades imobiliárias de Fernando Medina só surgem nos OCS na semana de 12 a 16 de setembro. 

Após essa semana e na sequência de esclarecimentos de Fernando Medina através do seu site de campanha (já não estão online) o assunto não volta a surgir nos OCS e a investigação parece não ter ganho tração, provavelmente na sequência das explicações e documentação apresentadas pelo próprio presidente da CML.  

A Direita Política regressa em 2018 com um artigo sobre o presidente da CML, com um meme com acusações não fundamentadas. Nesse artigo, referem -como se fosse um dado novo – que Fernando Medina tinha adjudicado por ajuste direto 5,5 milhões de euros à Teixeira Duarte. Esse facto conta já da lista de indícios suspeitos ressalvados pelos OCS em setembro de 2017.

 

 

Muçulmanos

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Caracterização

Factos incorretos – no texto do post
Factos imprecisos – no texto do post
Título incorreto – no link
Factos imprecisos – no link
Reciclagem – no post
Timing fora de contexto – no post

Categoria: False context; manipulated content

Justificação

Artigo da Gaceta data de 21 de Janeiro de 2019 quando a notícia original que deu origem a este artigo é de 11 de Fevereiro de 2016. 

O blog da Gaceta encontra-se atualmente atrás de algum tipo de paywall ou restrição de acesso mas a página está acessível em cache aqui. O acesso ao artigo na íntegra permite perceber que o mesmo é uma cópia deste artigo de 2017, que por sua vez remete para um terceiro artigo

O tema parece ter sido amplamente utilizados por redes de desinformação. Uma pesquisa em Google do Imam a que os artigos se referem e a expressão underaged girls resulta em links para a Russia Today, Breitbart, Sputnik News, entre outros.

A declaração em si resulta de uma entrevista que um imam dinamarquês deu ao jornal Metroxexpress , publicada a 11 de fevereiro de 2016. Na entrevista original o imam apela para a compreensão daquilo que considera ser uma diferença cultural, destacando que este tipo de casos (falando de duas jovens de 14 anos casadas com homens de 24 e 28) não são a normalidade mas surgem muitas vezes da insegurança que se vive nos campos de refugiados: Maybe it was usually 100 years ago, but in Arab culture it is now very rare to get married so early. But of course it exists. Personally, I would never let my daughter get married until she was 18 years old. But many of these places have no rules.”

No mesmo artigo os jornalistas contactaram outros representantes de outra associação muçulmana que responderam apenas que: “The law states that the marriage of young people under the age of 18 must not take place except with the permission of the relevant state authority, and in the Islamic faith community this is followed.”

Ou seja, para além da questão do timing, o artigo da Gaceta tem uma série de factos imprecisos relativamente ao artigo original. A extrapolação do pedido ser direccionado para o Governo Espanhol é incorreta. 

Por fim, o texto do post, com a ligação entre a formação em ideologia de género ser fomentadora / facilitadora da sexualidade precoce ou, mais grave, da aceitação do abuso sexual, também é incorreta. O texto do post reforça ainda a narrativa desta possibilidade dos casamentos com menores ser em Espanha. 

 

Mariana Mortágua

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Caracterização

Reciclagem – no post
Timing fora de contexto – no post
Título impreciso – no link

Categoria: Misleading content

Justificação: Artigo do Direita Política de 17 de maio de 2017 inclui um vídeo onde Mariana Mortágua faz as afirmações que lhe são imputadas no artigo. A entrevista é de Março de 2017 e mesmo vendo a totalidade da mesma, o discurso proferido não perde contexto, em linha com o artigo da Direita Política.  O título é um pouco impreciso, mas tirando esse ponto, o mesmo só se encontra sinalizado pelo timing fora de contexto em que ressurge. 

 

Queima das Fitas

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Caracterização

Texto do post induz a interpretação incorreta do link
Reciclagem – no post
Timing fora de contexto – no post

Categoria: Misleading content

Justificação

A publicação em causa acaba por ser ironicamente um exemplo de infeliz escolha do link, por se tratar de uma notícia de 2018. Em 2018 os valores de resíduos não aumentaram face a 2017 e diminuíram face a 2016, na sequência de uma série de campanhas. O artigo do Público em link neste post é na realidade um relato bastante positivo do ponto de vista ambiental, contrário à mensagem que o texto do post tenta incutir.

Este ano, houve um aumento de resíduos, não obstante uma série de medidas da organização como noticia o mesmo Público. A notícia data de maio de 2019. Nesse sentido, o texto do post faria algum sentido, não fosse o link escolhido referir-se a 2018.

 

António Costa Pinóquio

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Caracterização

Acusações não fundamentadas – no texto do post
Acusações não fundamentadas – no link
Spin de imagem – no link

Categoria: Misleading content

Justificação

Cópia integral do texto do post original da Direita Política (incluindo texto do post) 4 horas depois da sua colocação pelo Direita Política.

Os dados enunciados correspondem. A colocação da imagem de Costa com Sócrates e introdução do nariz de Pinóquio remetem para acusações não fundamentadas. O mesmo relativamente à associação no comentário de que os impostos são calculados em prol dos gastos. A frase que é imputada a Costa, e que surge (acrescentada) sobre o print screen do Polígrafo, não corresponde literalmente ao que foi dito, embora o contexto esteja correto. Costa disse: “Os portugueses estão a pagar menos mil milhões de euros de impostos do que pagavam em 2015″ 

 

 

NOTA METODOLÓGICA

Esta despistagem analisa os 20 posts com mais interações publicados nos grupos públicos de Facebook monitorizados pelo projeto Monitorização de propaganda e desinformação nas redes sociais na semana de 15 a 21 de Setembro de 2019.

Cada um desses 20 posts foi analisado para determinar a sua veracidade, em primeiro lugar, e – no caso de incluir desinformação – que tipos de desinformação lhe estão associados.

Para caracterizar a desinformação é usada uma nomenclatura desenvolvida pelo projeto e para os categorizar recorre-se aos 7 tipos de desinformação do First Draft.

A identificação das pessoas que publicaram os posts nos grupos monitorizados foi ocultada por razões de privacidade.

Coordenação: Gustavo Cardoso

Codificação e análise: Inês Narciso

Este projeto de investigação é realizado em parceria com o Diário de Notícias e com o apoio do Democracy Reporting International.

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