A montra jornalística na estação pandémica I

O Coronavírus enquanto “evento de media” e “acontecimento jornalístico” na imprensa portuguesa

Por Livino Neto (texto) e Décio Telo (edição e visualizações)

Se o atento leitor, nestes tempos de pandemia, passou por algum quiosque de jornal – destes que ainda vendem jornais – deve ter observado que nas primeiras páginas dos diários de notícias há um assunto que permeia todos os outros. Sim, estamos a falar de Coronavírus.

Figura 1 – Colagem de destaques de primeira página sobre Covid-19 no Correio da Manhã, Jornal de Notícias e Público entre 3 e 18 de março de 2020.

É o vírus na economia, na saúde e na educação, do pequeno almoço ao jantar, do sagrado ao profano, do futebol à ciência. Permitindo-me ao infame e óbvio trocadilho, “contagiaram-se” os jornais e os assuntos da esfera pública com a tal da Covid-19, como muito bem pode ser observado nas capas dos nossos jornais, tais quais as montras da estação, desta estação pandémica.

Ao perceber que vivemos num mundo mediatizado, onde o tecido cultural e social é moldado pelos media (Bastos, 2012), pode-se, como em Linvingstone e Lunt (2014), argumentar que política, religião, educação ou ciência são todos, portanto, domínios mediatizados, considerando os efeitos dos media nestes campos específicos da sociedade. Ainda que a pandemia não possa ser tratada como um campo social, esta aí se insere enquanto “evento de media” essencial para perceber a forma – espacial e temporal – como se constitui o poder simbólico que permeia sistemas sociais complexos.

Couldry e Hepp (2018) consideram que os eventos de media são performances situadas, espaçadas e centralizadoras da comunicação mediada, focada em núcleos temáticos específicos, sendo capazes de vincular pessoas de diferentes contextos sociais num complexo processo de comunicação a partir de representações heterogéneas e por vezes contraditórias.

Pode-se falar da pandemia de Coronavírus como um evento de media, onde a cobertura mediática afeta diversos campos da sociedade, com caráter polissémico, atuando de forma complexa e num período prolongado. Assume uma função orientadora num exercício de poder institucional, que se faz na prática social de representação da realidade através da produção de notícias.

A notícia, enquanto construção social, é resultado de interações diversas entre agentes, influenciada por fatores externos e internos de uma cultura profissional jornalística (Traquina, 2005), sendo uma “ação negociada” estruturada por enquadramentos na construção da representação da realidade (Tuchman, 1993).

Traquina (2005) aponta que o jornalismo é uma atividade intelectual e criativa, que compõe um “campo jornalístico” e caracteriza-o pela metáfora de um magneto de dois polos, em que o polo positivo da ideologia profissional – que pensa o jornalismo a partir do seu interesse público – encontra-se em tensão permanente com o negativo da sua vertente económica, onde o jornalismo é visto como negócio e a notícia como uma mercadoria.

Pode-se dizer que a notícia é a descrição de um evento real, de um facto, sendo uma representação desta realidade, realizada a partir da prática social do jornalismo. Para que um evento se torne um “acontecimento jornalístico”, há uma construção a partir de critérios de seleção editoriais, designados por “valores-notícias”, tornando-se mediático quando recebe uma atenção excepcional dos medias, constituindo uma certa hegemonia no noticiário (Mesquita, 2003), como podemos observar no caso da cobertura jornalística sobre a pandemia de Coronavírus.

Neste sentido, Charaudeau (2012) aponta que é através da cobertura dos media que o acontecimento é selecionado e construído a partir da suas características de “atualidade”, “socialidade” (a representação do que ocorre a partir de repertórios já constituídos na vida coletiva) e de imprevisibilidade (a capacidade de estremecer o sistema de expectativas do consumidor de informação).

Não é apenas a notoriedade de um evento que determina o destaque com o qual um acontecimento será abordado, existindo diversos fatores de influência, como os critérios de noticiabilidade, que se somam à longa cadeia produtiva da notícia (Shoemaker, 2006). Os critérios de noticiabilidade envolveriam uma série de fatores capazes de agir no processo de produção da notícia, indo desde características do fato em sí, até aspectos condizentes com a cultura organizacional do jornal ou elementos atrelados a uma ideologia do jornalismo (Traquina, 2005).

Gislene Silva (2005) propõe três conjuntos diferenciados de critérios, concomitantes, de noticiabilidade: a) a origem dos factos, incluindo aí os valores-notícia; b) o tratamento dos factos, centrando-se na seleção hierárquica dos factos e dos fatores inseridos na cultura organizacional, bem como no contexto prático da produção da notícia (qualidade do material, prazo, infraestrutura, etc.) e fatores extra-organização (relação do repórter com fontes e público, por exemplo); c) a visão dos factos, que inclui os fatores ligados à ideologia do jornalismo.

Ao analisar as capas dos três jornais diários impressos portugueses, de caráter generalista – o “Correio da Manhã”, “Jornal de Notícias” e o “Público” – pode-se observar, ao longo do tempo transcorrido, como o “acontecimento” da pandemia torna-se um acontecimento mediático e passa a ser estruturante nas notícias sobre os mais diversos campos da esfera social. Os critérios de noticiabilidade deixam assim marcas na composição destas primeiras páginas, constituindo diferenças entre os diários, seja no seu desenho gráfico ou no discurso expresso textualmente.

Cada jornal, a partir de retalhos, costura a sua própria roupa, compondo a sua própria narrativa sobre a pandemia, configurada a partir de interesses específicos, sejam eles comerciais ou públicos, na tensão permanente – tão bem descrita por Traquina – do que seria o campo jornalístico. Compreender as narrativas jornalísticas sobre a pandemia de Coronavírus, entendendo-a, paraleleamente, enquanto um evento mediático e um acotecimento jornalístico, permite-nos observar como estes media tradicionais exercem seu poder institucional, na busca de perceber como estes descrevem a realidade e atuam no sentido de informar e orientar moralmente o público.

É neste sentido que, no interior do Barómetro de Notícias do MediaLab, tem-se direcionado um esforço científico de investigar como os principais órgãos de comunicação social têm tratado o tema da pandemia ao longo do seu desenvolvimento.

Ao leitor, fica o convite para uma próxima leitura, onde serão apresentadas algumas das observações iniciais destes estudos e uma melhor descrição do que seria esta metáfora da “montra jornalística”, aqui já referida brevemente.

NOTA: Esta série de 3 textos em formato blogue, traduz a apresentação de uma iniciativa de investigação científica do MediaLab CIES-Iscte inscrita no projeto “Barómetro de Notícias 2020-2021” que será publicado integralmente em relatório no formato PDF, neste site.

Este projeto visa o estudo da cobertura jornalística da pandemia da Covid-19 nos principais meios de comunicação social ditos tradicionais – imprensa diária em papel e noticiários televisivos. Numa primeira fase o estudo compreende o período entre a notícia do primeiro caso em Portugal e o fim do estado de emergência em Portugal, entre 2 de março de 2020 e 2 de maio de 2020.

Bibliografia

Bastos, M.T. (2012) Medium, media, mediação e mediatização: a perspectiva germânica. In Mattos, M.A.; Júnior, J.J. & Jacks, N. (orgs.) Mediação & Midiatização. Salvador. EDUFBA

Charaudeau, P. (2012). Discurso das mídias. 2.ed. São Paulo. Contexto

Couldry, N. e Hepp, A. (2018) The continuing lure of the mediated centre in times of deep mediatization: Media Events and its enduring legacy. Media, culture and Society. 40(I):114-117

Linvingstone, S. e Lunt, P. (2014). Medeatization: an emerging paradigm for media and caommunication studies. In Lundby, K. (ed). Medeatization of communication. Handbooks of Communication Science (21). Berlin, De Gruyter Mouton.

Mesquita. M (2003). O quarto equívoco: o poder dos medias na sociedade contemporânea. Coimbra. Edições Minerva Coimbra

Shoemaker P.J. (2006). News and newsworthiness: A commentary. Communications 31:105-111

Silva, G. (2005). Para pensar critérios de noticiabilidade. Estudo em Jornalismo e Mídia 2(1):95-107

Traquina, N (2005). Teorias do Jornalismo: porque as notícias são como são (Vol. I). ed. 2.Florianópolis. Editora Insular.

Tuchman, G. (1993) A objectividade como ritual estratégico: uma análise das noções de objectividade dos jornalistas. In: Traquina, N. (Org.). Jornalismos: Questões, Teorias e Estórias. Lisboa, Vega.

One Response

Responder a Hadassa Oliveira Cancelar resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *